Alfabetização além da disputa- A era dos métodos rígidos fracassou

A proposta é deixar de lado a polêmica entre enfoques e discutir o que realmente funciona no ensino da leitura e da escrita

A controvérsia é velha. Você deve conhecê-la: na hora de alfabetizar os alunos, qual caminho seguir? Há pelo menos 100 anos essa é uma das mais fortes polêmicas da Educação. Não só aqui: vários países registram versões mais ou menos estridentes da disputa entre formas de ensinar a ler e escrever. Começou nas primeiras décadas do século passado, com a briga em torno do melhor método. Ganhou novos contornos a partir dos anos 1980, quando as investigações de Emilia Ferreiro trouxeram valiosas informações sobre como as crianças refletem sobre a escrita. O marco é o lançamento de Psicogênese da Língua Escrita (Ana Teberosky e Emilia Ferreiro, 300 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444, 79 reais). “O debate deixa de ser sobre atividades externas ao aluno e passa a considerar como ele pensa”, diz Ana Paula Dini, doutoranda em Educação e Linguagem pela Universidade de São Paulo (USP) e professora da rede particular da capital paulista.

A era dos métodos rígidos fracassou.  Só 8% dos brasileiros são plenamente capazes de se expressar com  letras e números.

Ao longo dos anos, os métodos rígidos, com apenas um caminho, foram superados entre os especialistas. Porém, eles continuam vivos em várias salas de aula. Muitas vezes de forma escondida, um pouco envergonhada, professores ensinam como aprenderam, recorrendo a atividades como a caligrafia e o uso de cartilhas. Num certo sentido, é algo esperado. “Para o professor não interessa a polêmica. Ele precisa ensinar e, para isso, recorre aos conhecimentos que possui e aos recursos que estão disponíveis”, explica Valdir Barzotto, professor da Universidade de São Paulo (USP).

Mesmo as contribuições de Ferreiro – terreno comum para perspectivas mais modernas, que embasam programas de formação continuada e propostas curriculares Brasil afora – acabam chegando à escola de maneiras distintas. Vem daí a discussão que opõe dois enfoques, que ficaram conhecidos como construtivista e letramento.

Em meio à disputa, perde a aprendizagem.  Apenas oito em cada 100 brasileiros de 15 a 64 anos são plenamente capazes de se expressar com letras e números, segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional, Inaf.

Para mudar essa estatística no futuro, é preciso agir agora. Quais são, afinal, as práticas mais adequadas para alfabetizar? Nas próximas páginas, explicamos o que funciona, o que comprovadamente não dá certo e o que ainda está sendo discutido. As diferenças entre as duas concepções modernas realmente existem, mas a prática de sala pode até se enriquecer contemplando atividades de ambas. Bandeira branca para que todos possam aprender a ler e escrever.

Para ficar no passado

“Até a metade do século 19, todas as pessoas foram alfabetizadas do mesmo jeito”, diz Isabel Frade, diretora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenadora da equipe de especialistas da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Primeiro, ensinavam-se as letras, depois juntavam-se as letras para formar sílabas e, só depois, a turma entendia que a junção de todos esses elementos poderia formar palavras. “Essas atividades eram sem sentido, porque demorava-se a chegar ao significado”, afirma Isabel.

Na virada para o século 20, novas propostas se dividiam em dois grandes grupos. O primeiro, dos métodos sintéticos, desenhava um caminho de ensino da parte para o todo, começando com a compreensão de unidades como a letra (método alfabético), fonema (método fônico) ou sílaba (método silábico). Um segundo grupo, o dos métodos analíticos, propunha a trajetória inversa: do todo para a parte, iniciando com o estudo de palavras (palavração), frases (sentenciação) ou do texto inteiro (método global).

Muitos métodos tradicionais se apoiavam em práticas mecânicas, como exercícios de coordenação, caligrafia e leitura de textos de cartilhas. A repetição – e não o raciocínio – era o foco do ensino.

Essas teorias chegavam aos professores de forma inflexível e fechada, o que trouxe problemas. Entre os métodos sintéticos, privilegiava-se a decifração, com os alunos memorizando sílabas (ba-be-bi-bo-bu) para depois tentar formar palavras ou frases  descontextualizadas (“eu vejo a barriga do bebê”). Boa parte deles se focava em exercícios mecânicos e práticas hoje reconhecidas como ineficientes. Em comum: todas elas tratam o processo de alfabetização como a aquisição de uma técnica, relacionada apenas às relações entre sons e letras (veja o quadro abaixo). “São procedimentos lineares, sequências de atividades que não preveem a participação ativa do aluno”, diz Regina Scarpa, diretora pedagógica da Escola Vera Cruz, na capital paulista. “A tarefa de escrita não é mecânica”, destaca Telma Weisz, pesquisadora do tema e idealizadora de diversos programas de formação de professores alfabetizadores.

Já entre os métodos analíticos, a crítica era a falta de reflexão sobre o funcionamento do sistema alfabético. Na busca exclusiva pelo significado do que estava escrito, dedicava-se pouco tempo ao estudo das relações grafofônicas – a ligação entre os sons da fala e suas possíveis grafias. Continue lendo esse artigo…

Fonte: https://novaescola.org.br/

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