A sala de aula também pode ser um lugar de brincar

A criança brinca. Este é seu “trabalho”, alguns diriam. Desde muito pequena, descobre seu mundo brincando, correndo, se escondendo, manipulando e explorando objetos quaisquer sejam as condições e contextos. Na escola, majoritariamente, a brincadeira tem seu lugar na chamada “hora do intervalo”, em espaços e tempos definidos. Seria possível, para não dizer necessário, que a sala de aula fosse um lugar de ensino, mas também de brincar?

Há diversos estudos que abordam o brincar como atividade lúdica e de possível inserção na prática pedagógica, em diferentes níveis. L. S. Vigotski (1896-1934), teorizador da Psicologia histórico-cultural, aponta que a brincadeira pode funcionar como uma mediação essencial para que a criança alcance novos potenciais de desenvolvimento, visto que, brincando, ela cria e constrói novos sentidos e significantes para sua própria existência (Vigotski, 2007). Esses potenciais de desenvolvimento são constituídos nas chamadas “zonas de desenvolvimento proximais”. Essas podem ser zonas “reais”, concebendo o que as crianças já são capazes de fazer, e “potenciais”, como aquilo que elas poderiam ser capazes de realizar, com o auxílio de algo ou alguém.

Na brincadeira, a criança imita, imagina, exerce habilidades motoras e cognitivas, movendo diferentes e múltiplos elementos de suas zonas proximais, para assim desenvolver-se. Explorar a brincadeira nos espaços educacionais não é novidade. Contudo, em uma cultura cada vez mais adulto cêntrica (Navarro & Prodócimo, 2012), que prioriza uma abarrotada e exaustiva grade curricular à livre criação e imaginação, o retorno a essas temáticas se faz necessário.

Espaços escolares que priorizam a relação com o brincar não só criam novas possibilidades de relação ensino-aprendizagem como propiciam a formação integral, considerando os diferentes aspectos dos sujeitos em desenvolvimento.  Para que tal aprendizagem ocorra, deve-se levar em consideração o tempo definido para a brincadeira, a apropriação de conhecimentos e a possibilidade de experimentação, elementos fundamentais de todo o processo e que fomentam a atuação da própria criança, concebendo-a não só como produto mas também como produtora do seu crescer e desenvolver.

A mediação de um adulto estimula ainda mais tais processos de desenvolvimento visto que auxilia a criança a atingir, progressivamente, suas zonas de desenvolvimento potenciais. A criança aprende e se desenvolve, principalmente, com um outro que media suas experiências.

Segundo Fortuna (2000), o adulto muitas vezes tem dificuldades de integrar-se à brincadeira, considerando-a como tempo de “bobagem” ou ainda dando rigor extremo à atividade lúdica. Reconhecer e reconciliar-se com a criança que existe dentro de si é importante ao professor que tem essas questões em seu cotidiano.  A autora argumenta que a criatividade continua existindo na vida adulta e dar lugar a ela na brincadeira possibilita momentos prazerosos e de fortalecimento de vínculos com os estudantes, como também importantes momentos pedagógicos. Assim, é preciso vivenciar as atividades lúdicas em si mesmas, e entender que a observação reflexiva e intencional das crianças em suas brincadeiras também é atuação pedagógica (…). Continue lendo esse artigo

Fonte: Nova Escola

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.