Reprovar estudante que ainda não lê pode ajudá-lo na alfabetização?

Tenho uma filha com Síndrome de Down de sete anos no 1º ano do ensino fundamental. Ela ainda não sabe ler, mas reconhece algumas letras e números. Pela escola, ano que vem ela irá para o 2º ano mesmo assim. Há uns dois meses ela está fazendo aula particular, com uma abordagem diferenciada e o resultado está sendo satisfatório. Mesmo assim, penso que o interessante seria ela ser retida no 1º ano para ter um aprimoramento na aprendizagem (uma melhor alfabetização de base). O que vocês pensam sobre essa questão?

Por RAQUEL PAGANELLI ANTUN em 04/12/2017

A verdade é que a lógica por trás da reprovação (quando a decisão é da escola) ou da retenção (quando a decisão é da família ou dos responsáveis pelo estudante), particularmente nesse contexto (no primeiro ano), é, indubitavelmente, da homogeneização. Espera-se que todos os alunos aprendam as mesmas coisas no mesmo período de tempo. E não se trata só de expectativa. Os professores organizam as aulas desse modo também. De maneira que, se o estudante “perdeu o timing”, não será mais estimulado com a mesma ênfase a aprender os conteúdos que “passaram”. Imagino que esta seja sua principal preocupação e motivação para a retenção. Acontece que a educação inclusiva propõe um modelo de ensino baseado na diferença, como característica humana, ou seja, no pressuposto de que o processo de aprendizagem de cada pessoa é singular. E quando dizemos que as necessidades educacionais e o desenvolvimento de cada aluno são únicos, isso também diz respeito ao tempo de aprendizagem. Assim, os diferentes tempos de aprendizagem devem ser não somente respeitados, mas considerados no currículo e no planejamento pedagógico. Por isso dizemos que, na perspectiva inclusiva, o currículo é flexível e as estratégias pedagógicas são diversificadas – também em relação ao tempo, considerando o ritmo de cada um.

Trata-se de uma questão bastante controversa. Mas, acredite, por trás da aparente complexidade, decorrente da polêmica e da multiplicidade de justificativas e argumentações, está a resistência à transformação das práticas baseadas em um paradigma homogeneizante e excludente para a garantia da educação para todos. Simples assim. Se é assim para qualquer conteúdo ou objetivo de aprendizagem, quanto mais para a alfabetização, um processo particularmente complexo e subjetivo.

Não por acaso, o Ministério da Educação (MEC), já há mais de 10 anos, recomenda que nenhuma criança seja reprovada Site externo ou retida nos três anos iniciais do ensino fundamental, considerando-os “como um bloco pedagógico ou um ciclo sequencial não passível de interrupção voltado para ampliar a todos os alunos as oportunidades de sistematização e aprofundamento das aprendizagens básicas, imprescindíveis para o prosseguimento dos estudos”. Atualmente, a orientação se mantém, a partir do Pacto nacional pela alfabetização na idade certa (Pnaic), que prevê o letramento em português e matemática até o terceiro ano do ensino fundamental. A nova Base nacional comum curricular (BNCC), que deverá ser analisada até o final deste ano e, provavelmente, chegará às escolas até 2019, indica uma possível mudança nesse sentido, ao estabelecer que as crianças sejam capazes de ler e escrever até o segundo ano do ensino fundamental. Mas tal proposição ainda não foi aprovada e tem sido motivo de muita polêmica.

Considerando que você mesma constatou que, com “uma abordagem diferenciada”, os resultados têm sido melhores, será que submeter sua filha à repetição de tudo que já foi trabalhado no decorrer deste ano é a mesmo a melhor estratégia? Isso sem falar na dimensão afetiva e social.

O que você acha de dialogar com a escola sobre tudo isso? Não se trata somente de decidir se ela “vai ou fica”. Mas de unir esforços, a partir de uma parceria efetiva, baseada em cooperação e apoio mútuo, para buscar garantir a equiparação de oportunidades para que sua filha possa participar de todas as atividades e aprender – no tempo dela. Sugerimos que você proponha à gestão escolar a organização de espaços de diálogo que, independentemente do formato, viabilizem a participação direta e ativa de todos os envolvidos (família, professores, profissionais não docentes, etc.) na discussão coletiva de estratégias nesse sentido.

Esperamos que esta resposta possa servir como referência, fomentando discussões relevantes na escola de sua filha não somente para a resolução deste impasse, mas para a promoção do trabalho colaborativo na busca pelo pleno desenvolvimento de suas potencialidades. Conte-nos mais sobre isso e continue participando da comunidade. Você é muito bem-vinda aqui. Acompanhe mais respostas aqui…

Fonte: https://diversa.org.br/

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