Analfabetismo do 6º ao 9º ano. Como resolver?

Por: Fernanda Salla

Muitos estão na escola há anos, mas não têm autonomia suficiente para elaborar ou apreciar um texto. Na Prova Brasil de 2009, 68,4% dos alunos do 6º ano não alcançaram a pontuação considerada mínima em Língua Portuguesa pela organização não governamental (ONG) Todos pela Educação, que é de 200 pontos. Quer dizer, elas não têm capacidades plenas de compreender, interpretar, criticar e produzir conhecimento. Ou seja, podem ser consideradas analfabetas.

Esse grave problema, embora tenha raízes nos anos iniciais de escolaridade, precisa receber atenção assim que diagnosticado, seja lá qual for a idade do estudante e o ano em que está matriculado. O adolescente não pode se tornar o centro de uma situação em que ninguém se responsabiliza pela questão ou, pior ainda, em que o professor de Língua Portuguesa é apontado como o culpado por ela.

Não saber ler e escrever implica em consequências para o estudo de todas as disciplinas. “Sem compreender textos e enunciados, o aluno vai ficando cada vez mais para trás em relação ao grupo”, explica a educadora Maria Inês Pestana, ex- diretora de Estatísticas Educacionais e de Avaliação da Educação Básica do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O resultado é uma pessoa excluída do processo de aprendizagem.

Foi o que ocorreu com Leonardo dos Santos, Aline Gomes e Maria Vitória Brandão, cujos casos ilustram esta reportagem. Eles perderam um tempo imenso até encontrarem professores de Língua Portuguesa que diagnosticaram a situação de analfabetismo e enfrentaram o problema até solucioná-lo.

Identificar a falta de familiaridade de alguns estudantes com a leitura e a escrita requer muita atenção e sensibilidade dos educadores. Há jovens que se recusam a ler em voz alta e não compõem textos por conta própria, escrevendo somente palavras decoradas. Outros só copiam o que está no quadro ou no caderno do colega, sem saber realmente o que estão fazendo – são os copistas. Existem ainda os que se comportam de modo indisciplinado ou apático. Tudo para camuflar o problema, já que se sentem envergonhados. “Culpar o estudante ou tachá-lo de incompetente é inadmissível. Dessa forma, ele vai cumprir a profecia do fracasso. Cabe ao educador enxergá-lo como alguém capaz de aprender, além de diagnosticar o que ele sabe, para usar isso a favor do que precisa ser conquistado”, explica Maria Inês.

O processo de alfabetização de adolescentes deve condizer com a etapa de desenvolvimento psicogenético deles e levar em conta o meio sociocultural em que se encontram. Atividades permanentes de leitura e de reflexão sobre a escrita, com material adequado à faixa etária e foco no combate às principais dificuldades, são a chave do ensino. No entanto, o desafio é formar usuários competentes da língua, de acordo com Delia Lerner no livro Ler e Escrever na Escola: O Real, o Possível e o Necessário (Ed. Artmed, 128 págs., tel. 0800-703-3444, 42 reais). Afinal, só decifrar o sistema de escrita é pouco para quem tem muita vontade (e direito!) de aprender.

Conheça três casos de sucesso

“Ele não participava das aulas porque não enxergava bem.”

Leonardo e Adenilza. Foto: Marina Piedade

“Desde o início de carreira, sempre notei que alguns alunos chegavam aos anos finais do Ensino Fundamental sem saber ler nem escrever. Leonardo era um deles. Ele copiava as tarefas do caderno dos amigos sem saber o que estava escrito. O que ninguém sabia (nem o próprio garoto) é que ele tinha 6 graus de miopia e, por isso, não enxergava o quadro. Uma professora descobriu o problema em 2010 e lhe deu um par de óculos. Daí em diante, Leonardo precisava recuperar o tempo perdido. Retomei o material de uma formação sobre leitura e escrita que tinha adaptado havia tempos com propostas de alfabetização. Durante as aulas regulares, passei a apresentar atividades de produção de texto, leitura e oralidade, juntamente com o currículo normal. Hoje, Leonardo adora escrever, ficou em nono lugar em um concurso nacional de poesias e foi convidado a publicar o poema em um livro.”
Adenilza Lira, professora do 7º e do 9º ano da EM Antenor Nascentes, em São Paulo. Continue Lendo esse artigo

Fonte: https://novaescola.org.br/

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