Lendas indígenas para crianças

Quem foram os criadores do mundo? Como surgiram as primeiras pessoas? Foram mulheres ou homens? Como a humanidade conquistou o fogo e, ao aprender a arte da cozinha, cessou de limitar-se a alimentos crus? Foi o acaso ou foram estilhaços do sol? O fogo foi roubado de um dono primordial? De onde vêm os animais, serão eles gente que foi virando bicho? E as plantas, milho, mandioca, amendoim, feijão, como foram incorporados ao nosso sustento?

Essas e infinitas outras questões irrompem dos mitos dos nossos 200 povos indígenas, com enredos e respostas muito diferentes para cada uma. São contados em quase duas centenas de línguas, sendo apenas uma pequena parte escrita em português. A origem da anatomia humana, da sexualidade, das estrelas, da luz e da escuridão, da morte, do sol, da lua.

Leia atividade didática de Língua Portuguesa inspirada neste texto

Expectativas de aprendizagem: Comparar textos ou versões quanto ao tratamento estilístico ou temático; ler em voz alta ou recontar os mitos de maneira a suscitar o interesse de outros interlocutores; encenar narrativas

A ameaça de visagens e monstros, a cabeça decepada que voa em busca de comida ou aventura, nenês que nascem da barriga da perna ou do dedão do pé, ficam adultos e voltam a ser de colo; crianças que fazem cocô de amendoim (um mito que os pequenos adoram); os perigos e obstáculos que os que já morreram devem enfrentar na passagem ao além. São todos exemplos de um repertório que causa estranheza e fascínio.

Adultos não índios costumam procurar uma ordem e uma vereda nesse universo, analisando, relacionando temas, explicando comportamentos. Teorizam. As crianças, sem preconceito, deixam-se levar e sorvem as iguarias narrativas. Para os educadores, a tarefa não é fácil, a menos que conservem o frescor infantil e se abram para o novo.

Os livros de mitos são numerosos, documentados por cronistas, viajantes, antropólogos, hoje em dia escritos por professores e autores índios. Os dons literários e a habilidade com as palavras variam, assim como a fidelidade ao que foi contado – pois a tradição indígena, até há pouco, era unicamente oral. A bibliografia é extensa, bem como filmes e música elaborados por índios e artistas.

O jeito é cada curioso ir se soltando, sem o desespero de entender ou arrumar demais, mas com o impulso de mergulhar e prestar atenção. Os mitos, como a ficção e os livros, estendem a consciência que temos do mundo, dos seres humanos e sua diversidade, fazem viajar por plagas distantes, países, línguas e novos significados para a existência. Com eles, entramos no âmago de outras vidas.

A melhor forma de aproveitar mitos é abandonar-se. Ler muito com os alunos, contar em voz alta, estimular relatos, representações, comentários. Quanto mais histórias, e mais variadas, melhor, para encontrar o que desperta interesse. Perceber as reações, as risadas, o prazer com os enredos, sem medo de eles serem terríveis ou impróprios.

Evitar a censura ou a preocupação em classificar, explicar demais, ou mesmo comparar com outras mitologias, embora às vezes isso seja um bom caminho. A compreensão vem por si, para cada um de um jeito.

Os índios não dividem o que é infantil do que é do mundo adulto, nem mesmo quanto à sexualidade – o que é um problema para educadores, pois em nosso sistema reprimimos fases da sexualidade e termos considerados inconvenientes para crianças. Caberá a cada professor medir o que é possível.

Voltando às perguntas iniciais, em muitos povos os criadores costumam ser dois irmãos ou companheiros, um mais inteligente e preguiçoso, outro arteiro, mas muito inventivo. São os deuses criadores, mas nem sempre são quem fez gente: descobrem uma humanidade que já existia – não queiram vocês, leitores, saber onde e como ela apareceu… Por vezes, debaixo da terra, como nos Djeoromiti de Rondônia.

Nos Aruá, do mesmo estado, os seres humanos resultam da união de um dos criadores com a terra, que engravida. Os dois irmãos abrem uma rocha para libertar as pessoas. Nos Suruí Paiter, também de Rondônia, os quatro primeiros entes divinos nasceram de si mesmos, brotaram.

Um deles é Palop, “Nosso Pai”, que fez seu irmão, Palop Leregu, “Nosso Pai de Roupa”, mais ligado aos não índios. Palop criou gente. As mulheres não existiam, mas um homem sozinho, Iabeap, namorou uma árvore rachada e avisou a mãe que prestasse atenção, pois ia viajar. Essa mãe (vejam só, era mulher. Como, se elas não existiam? Assim são os mistérios míticos…) ouviu bulha no oco da árvore e, quando foi ver, eram duas nenezinhas, Kabeud e Samsam: assim nasceu o outro sexo.
O dono do fogo, nos Djeoromiti ou Jabuti de Rondônia, era o Pica-Pau Velho.

Os dois companheiros criadores, Kawewé e Karupshi, viviam andando, não dormiam, não tinham fogo. Mas roubaram fogo e machado do Pica-Pau: transformaram-se em formiga, mutuca, abelha, morderam o velho, que, ao tentar se livrar dos insetos, largou o machado em cima dos dois. Fugiram muito satisfeitos, de posse do fogo. Precisavam do machado porque, em sua terra, havia uma árvore de pedra que ameaçava cair e matar a humanidade. Com o machado, conseguiram derrubá-la. Machado e fogo, novos dons, aparecem associados em muitos mitos (…). Artigo completo no link que segue : Lendas indígenas para crianças

Fonte: http://www.cartaeducacao.com.br/

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