“A última coisa que vou fazer é greve”, diz candidata de oposição na APP-Sindicato

A corrida eleitoral para decidir o comando da APP-Sindicato vai ter um elemento novo neste ano. Há décadas, os mesmos grupos disputam o controle da maior entidade sindical do Paraná e a quinta maior do Brasil. Mas em 2017 surgiu uma candidata outsider: Isabele Félix Pereira, que já surge sendo “acusada” de ser um fantoche a mando de Beto Richa (PSDB) – uma estratégia como essa não seria necessariamente uma surpresa, já que há mais de três anos a categoria dos professores representa o principal grupo de oposição ao governador. Ela nega veementemente a acusação, afirma que não tem ligação próxima com nenhum político e que se candidatou por suas próprias convicções.

Apesar de nunca ter atuado como líder sindical, Isabele tem uma proximidade familiar com a entidade. Ela é filha de Eduardo Tavares Pereira, que presidiu o sindicato na década de 1970. Além do apoio do pai, ela conta também com a ajuda do publicitário Romerson Faco, que já atuou em campanhas eleitorais nas últimas décadas, e se voluntariou para ajudar. Como nome de chapa, Isabele escolheu “APP para Todos”, com o mote de incluir na gestão também os não associados e focar nos problemas da educação, deixando de lado outras demandas em que a APP-Sindicato esteve envolvida nos últimos anos.

Um desafio foi começar do zero para montar a chapa, composta pela diretoria de 24 pessoas e mais 18 para o conselho fiscal. São integrantes de várias regiões do estado, que vão de zeladoras a diretores. Uma das dificuldades para fazer campanha, conta ela, será o fato de que o grupo está em sala de aula, enquanto que muitos dos concorrentes podem contar com a estrutura da APP e estão à disposição do sindicato, sem amarras de compromissos em escolas, podendo ir em busca de votos a qualquer momento.

Em sua primeira investida política, Isabele foi candidata a vereadora de Curitiba na última eleição: teve 820 votos, sendo que o eleito menos votado teve o triplo de votos. Ela conta que se filiou ao partido Novo, por acreditar que é uma legenda não contaminada por vícios políticos. Relata que passou por um processo seletivo para ter a filiação confirmada, mas que não ficou nem um ano no partido porque não queria amarras. “Se minha bandeira é a educação, acho que eu precisava estar livre”, diz, reforçando que não tem um político que sirva de referência. “Posso me aproximar de qualquer um que não seja corrupto”, define.

Professora de artes no Colégio Estadual Professor Lysímaco Ferreira da Costa, em Curitiba, há 15 anos, Isabele afirma que faz política há muito tempo, mas que se concentra em atividades sociais. Ela está à frente do Instituto Paranaense de Políticas e Culturas (IPPC). Comenta que já contou com 15 ajudantes, mas que no momento toca os projetos sozinha. A iniciativa de maior destaque seria a “Piá, sai da rua”, que teria sido encampada por outras entidades. Mas também montou a árvore solidária, coberta de agasalhos para doação, na praça Tiradentes, e os muros solidários, com roupas e objetos direcionados para a população de rua.

Representação

Ela formalizou a candidatura na manhã desta terça-feira (18). “Eu decidi participar porque não me sinto mais representada pela APP”. Ela garante que sempre teve uma participação ativa na entidade e que já foi hostilizada em assembleias da categoria. E que estava na praça Nossa Senhora de Salete durante o fatídico 29 de abril de 2015. “Já estive em assembleias que tinha muita coisa na pauta, mas nada sobre educação”, avalia. “A bandeira que eu levanto é a do diálogo, com a greve só em último caso.” Ela reclama da aproximação da APP com a CUT e com MST e alega que irá representar muitos dos professores que estão silenciosos, que não vão para o embate, porque não concordam com a agressividade. Sobre as propostas, a candidata declarou apenas que espera o início oficial da campanha para apresentar o que chama de projeto para APP, com um conjunto de medidas que pretende apresentar.

Isabele reclamou formalmente do formato de votação que será usado na eleição, que é computadorizado com um sistema próprio. Na impossibilidade de recorrer às urnas eletrônicas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ela acredita que o uso de cédulas em papel seria o mais adequado. Mesmo com a justificativa de que o sistema será auditado e acompanhado pela comissão eleitoral, a candidata pondera que não terá como ter certeza sobre a lisura da votação. A direção da APP-Sindicato assegura que o sistema é verificável, com acompanhamento por representantes dos candidatos. Para fazer campanha, conta que está pedindo dinheiro a empresários e amigos. “Até para a minha cabeleireira”, brinca. Um jantar por adesão está nos planos, para breve. Ela sabe que vai gastar bastante para percorrer o estado.

Eleição em setembro

Atual presidente da APP, Hermes Leão confirma que a disputa em 2017 será mesmo diferente. “Bate-chapa sempre tem”, declara, acrescentando que a inscrição de Isabele é uma novidade. “Fazia bastante que não tinha uma situação como essa”, acrescenta. Até o momento, três grupos registraram candidatura. Além da “oposição”, Hermes concorre à reeleição e Luiz Paixão Rocha, que já disputou a última eleição e perdeu por uma margem apertada de votos, disputa novamente o comando da entidade. As duas chapas “de situação” são ligadas a centrais sindicais distintas, mas costumam se apoiar em algumas causas.

Hermes diz não ter nenhuma informação que confirme a relação de Isabele com o governo Beto Richa, destaca que a professora tem o direito de participar da eleição e que espera o debate saudável de ideias. “São valores do campo mais conservador, mas esperamos que não haja partidarização”, afirma.

O prazo para inscrição de chapas vai até o dia 20 de julho e a eleição está marcada para 19 de setembro, para um mandato de quatro anos. Só quem se filiou à APP-Sindicato até o dia 21 de junho tem direito a votar e 73 mil associados estão aptos.

Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/

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