ARTES- Técnica e intencionalidade em fotografias feitas pelo celular

A teoria aliada à tecnologia portátil leva a moçada a refletir sobre linguagem fotográfica

Os telefones celulares estão presentes em praticamente todas as salas de aula, ao alcance dos alunos. Em vez de disputar a atenção dos jovens com os aparelhos, o professor José Luiz Tavares da Silva resolveu aproveitá-los para elaborar um projeto de fotografia com sua turma do 8º ano da EMEF Professora Antonia Rosa, em São João da Ponta, a 130 quilômetros de Belém. Ele começou conversando com a classe sobre as diferentes funções das imagens: registro histórico, resgate da memória sentimental ou recurso profissional em diversas áreas. Mas o docente queria explorar com a moçada o potencial criativo dessa linguagem artística. “Minha ideia era que eles entendessem que a fotografia conta uma história, é a valorização de um momento. Ela é um texto, só que visual”, defende.

Com base em informações do livro História e Cinema: Educação para as Mídias, de Renato Mocellin (88 págs., Editora do Brasil, tel. 0800-770-1055, 30,90 reais), Tavares da Silva conversou com os jovens sobre aspectos técnicos como o ISO e a diferença entre o obturador e o diafragma. Enquanto o diafragma controla a quantidade de luz que passa pela lente, o obturador define o tempo de exposição a ela. Também falou sobre a importância do enquadramento e mostrou ilustrações que explicavam a espiral de ouro ou regra dos terços. Funciona assim: marca-se a foto com duas linhas paralelas verticais e duas horizontais, dividindo a imagem em nove retângulos. “A intersecção das linhas revela os chamados pontos áureos, que, se bem observados quando se registra a imagem, garantem que a composição fique mais equilibrada”, explica Wagner Souza e Silva, professor de fotografia da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). A classe analisou imagens demarcadas com as linhas e notou que a localização das figuras principais da imagem correspondia aos pontos áureos.

Depois do primeiro contato com a arte da fotografia, os estudantes avaliaram com o professor as particularidades e os recursos das diferentes câmeras de celular. “Vimos que o zoom digital pode alterar a qualidade da imagem e que algumas câmeras já mostram na tela as linhas da espiral de ouro. Mas esses recursos são limitados se comparados aos da máquina fotográfica”, explicou. Souza e Silva aponta mais diferenças entre os aparelhos portáteis e os tradicionais que podem ser trabalhadas durante a prática: “Com o celular, é difícil focalizar em um objeto específico e deixar os outros menos nítidos, a não ser que você esteja muito próximo dele. Quando elegemos uma área para aplicar um efeito de nitidez, burlamos a característica das câmeras de celulares de deixar tudo muito em foco”.

Tavares da Silva levou para a sala de aula os computadores portáteis disponíveis na escola com acesso à internet. A turma pesquisou sites com informações sobre a história da fotografia mundial, além de ver registros de grandes fotógrafos, tudo para refletir sobre essa linguagem. Alguns conteúdos interessantes podem ser encontrados no site do Instituto Moreira Salles, naEnciclopédia do Itaú Cultural e na linha do tempo produzida por NOVA ESCOLA.

Antes de sair pela cidade, o professor conduziu com os alunos uma reflexão sobre problemas ambientais da cidade de São João da Ponta, como a extração de caranguejo fora de época, as queimadas para a agricultura e a presença de lixo no mangue e no rio. O docente passou o vídeo A Carta do Ano de 2070, sobre um futuro sem sustentabilidade. “É interessante notar que o educador aborda temáticas transversais do currículo – a ecologia, a sustentabilidade e a preservação do meio ambiente – e trabalha com a fotografia”, aponta Umbelina Barreto, professora do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Em seguida, Tavares da Silva pediu que a turma pensasse na cidade e registrasse lugares que gostaria de ver preservados. A garotada foi dividida em grupos de cinco e saiu a campo. “Curiosamente, sem que eu tivesse falado nada, todos escolheram retratar o Rio Mocajuba e seu entorno”, conta o educador. Cada estudante deveria fazer pelo menos uma imagem. Quem não tivesse celular poderia usar o do colega. Adriano Cordovil Duarte, 15 anos, fotografou um ninho de pássaros na beira da água. “O rio é um local que gostaria de ver preservado e achei que a imagem mostrava essa vida.”

Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/fundamental-2/tecnica-intencionalidade-fotografias-feitas-pelo-celular-851925.shtml#ad-image-0

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